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Opiniões
Ditos populares
Jornal dos Lagos - Minas Gerais
* Paulo Afonso da Mata Machado
23/05/2005
Quando os romanos se reuniam em suas bacanais, ou festas dedicadas a Baco, o vinho corria solto. Também a comida era fornecida em abundância, de modo que os escravos deviam manter os copos e os pratos dos convidados permanentemente cheios. Terminada a festa, sobrava tanta comida nos pratos e tanto vinho nos copos, que os escravos faziam sua própria festa. Para impedir isso, os romanos adotaram a seguinte tática: depois que se entupiam de comida e de bebida, enchiam a boca, mastigavam o bocado e cuspiam no prato, fazendo isso repetidas vezes. Essa prática, tão egoísta quanto nojenta, deu origem ao dito popular “não se deve cuspir no prato em que se comeu”.
O projeto de transposição de águas da bacia do São Francisco tem merecido críticas acerbas, demonstrando uma total desinformação em relação ao mesmo. O IBAMA considera que o São Francisco não deve ter uma vazão na foz inferior a 1.300 m3/s, para manter as condições biológicas ao longo do rio. O comitê da bacia do São Francisco elevou esse valor para 1.500 m3/s, alegando que uma vazão menor dificultaria a navegação devido aos numerosos bancos de areia que existem em seu leito.
Toda a retirada de água do Velho Chico leva em conta esse número: a descarga no Atlântico não deve ser inferior a 1.500 m3/s. Pelo estudo estatístico das vazões mínimas de descarga do rio, chegou-se à conclusão de que a vazão firme é de 1.860 m3/s. Assim, a água que pode ser retirada do rio a jusante de Sobradinho não deve ultrapassar 360 m3/s.
A questão é exatamente essa: quem vai utilizar essa vazão? O comitê da bacia tem distribuído essas vazões pelos diferentes projetos, sendo que 91 m3/s já estão efetivamente sendo utilizados. A maior parte dos 269 m3/s restantes já estão alocados em projetos ainda não realizados, alguns deles bastante ineficientes, que poderiam funcionar com vazão muito menor. O principal argumento dos opositores da transposição é de que restam apenas 25 m3/s para serem alocados, o que é considerado insuficiente para o projeto de transposição.
É inacreditável que, com 360 m3/s excedentes (quase 10 vezes a vazão de todo o Estado de Israel), o comitê da bacia do São Francisco não encontre como alocar parcos 26 m3/s para beneficiar nossos irmãos nordestinos. A carência de água no sertão e no agreste nordestinos é tanta que se chega a questionar um projeto de produção de camarões para exportação, que gera empregos e divisas para o Brasil. A razão é que, conforme diz o dito popular, “em casa em que falta o pão, todos brigam e ninguém tem razão”. Para não faltar o pão, ou melhor, a água para as populações carentes do Nordeste Setentrional, é que se vai fazer esse projeto, cuja idéia original é de 1818, antes mesmo da independência do Brasil.
Muitos receiam que a transposição de águas do São Francisco vá ter um final infeliz como a Transamazônica. Contudo, é importante lembrar que o projeto vai ser realizado com dinheiro do superávit acumulado, sem nenhum empréstimo externo, embora o BID tenha se oferecido para financiar as obras. Dessa forma, acreditamos que o projeto de transposição está mais para a construção de Brasília nos anos 50, que para a construção da Transamazônica nos anos 70.
Surpreende que políticos de Alagoas e de Sergipe façam coro com a reação ao projeto de transposição, uma vez que esses dois estados se situam próximo à foz do Velho Chico, onde está garantida a vazão mínima de 1.500 m3/s. No caso de Sergipe, o assunto é, ainda, mais grave. Aracaju situa-se na bacia do Rio Sergipe, que não possui qualidade nem quantidade de água suficiente para abastecer a capital sergipana. Dessa forma, optou-se por abastecer a cidade com água do São Francisco, num caso típico de transposição de água entre bacias, realizado antes do advento da Lei 9.433/97, que obriga que assuntos dessa natureza passem pelo comitê da bacia respectiva. Portanto, quando os políticos sergipanos criticam o projeto de transposição de águas do São Francisco para o Nordeste Setentrional, estão procedendo como os romanos antigos e cuspindo no prato em que comeram.
A natureza está dando uma lição em sergipanos e alagoanos. Este ano, as torneiras do céu se abriram e choveu mais que em outros anos. A CHESF não tem como segurar a vazão adicional do São Francisco nas represas de Paulo Afonso e de Xingó e teve que abrir as comportas, provocando uma inundação em vales alagoanos e sergipanos, destruindo plantações de arroz e afetando a economia dos dois estados. De acordo com o dito popular de que “a maior enchente ainda está por vir”, deve-se esperar vazões maiores em anos vindouros com devastações ainda maiores.
Quando o projeto de transposição de águas do São Francisco para o Nordeste Setentrional estiver realizado, parte desse problema estará resolvido, pois os sistemas de recalque estarão dimensionados para transporem uma vazão de até 127 m3/s, que deverá ocorrer sempre que Sobradinho estiver vertendo. Um bombeamento de 127 m3/s para fora do rio tão logo Sobradinho comece a verter pode ser a diferença entre colher e não colher arroz em terras de Sergipe e de Alagoas às margens do Velho Chico. Além disso, estará sendo dada à água do rio um destino muito mais nobre que o de provocar enchente e destruir plantações.
Contemplando a devastação causada pelo excesso de água e lembrando que há políticos sergipanos e alagoanos lutando tenazmente para impedir o projeto de transposição, lembramo-nos de outro dito popular, este muito conhecido:
- “Quem tudo quer, tudo perde!”
Paulo Afonso da Mata Machado
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