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Lembra-se do bom samaritano?
Gazeta Mercantil - São Paulo

Durval Guimarães

18/05/2005


É difícil entender a motivação dos que lutam contra a TRANSPOSIçãO do Rio São Francisco. Nasci e atravessei a infância no Vale do Jequitinhonha, essa sofrida região incluída, sem méritos, na lista dos lugares mais atrasados do planeta. Naquela época, como agora, a miséria não conhecia limites, mas era a carência de serviços públicos - essa sim - que alcançava todo mundo. Rico ou pobre, ninguém tinha água encanada, luz elétrica ou hospital.

A iluminação regular só chegou em minha cidade quando eu já havia completado 25 anos e não morava mais lá. Por isso, todos os jovens aceitávamos com naturalidade o nosso repetido destino. Concluído o curso primário ou, no máximo, o ginásio, era hora de pôr o pé na estrada e se mudar para a capital. Ali, prosseguia-se nos estudos, arrumava-se uma profissão ou uma beirada na sombra aconchegante da burocracia. Poucos retornam, a não ser para festas juninas ou para enterrar parentes.

Não havia indústrias na região, exatamente como hoje, porque não existia eletricidade. A luz citada no parágrafo anterior apenas ilumina, mas não tem energia para movimentar muitas máquinas. Por isso, o Vale do Jequitinhonha continua imobilizado onde sempre esteve, com suas estatísticas desesperadas e menos de 2% do PIB de Minas Gerais.

Desta forma, vejo com perplexidade os movimentos supostamente sociais que tentaram impedir a construção da barragem de Irapé, a única até hoje no Rio Jequitinhonha, em território mineiro. A Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), que é estatal, enfrentou uma campanha gigantesca para realizar a obra. Entre outros argumentos, alegaram que a represa iria desalojar populações, como se isso não estivesse ocorrendo há décadas, exatamente porque não existem as barragens. Concluída aquela obra magnífica, a empresa enfrenta a mesma dificuldade para encher o lago e colocar as turbinas em operação.

Idêntica perplexidade me impede, igualmente, de entender a motivação dos que lutam contra a TRANSPOSIçãO do Rio São Francisco. Conheci o Nordeste nas páginas da revista "O Cruzeiro" e suas fotos estarrecedoras, de gente morrendo de fome e sede no sertão. Já na universidade, perdi a conta dos espetáculos de protesto contra a miséria. Agora, reconheço nas fotos de políticos e ambientalistas do presente muitos daqueles colegas indignados com a sorte nordestina.

Tenho conhecimento da existência de alguns estudos técnicos que condenam a TRANSPOSIçãO. Mas sei também que muitos documentos supostamente científicos são como os pareceres de certos juristas. Mudam de opinião ao sabor dos clientes. Eu que vi gado morrendo de sede e já me arrastei em romarias para pedir chuva, pergunto-me se essas pessoas que gritam contra a TRANSPOSIçãO não teriam se esquecido do bom samaritano, aquele homem generoso que, superior às diferenças e ódios, ofereceu água a um inimigo sedento. Lamento que esses samaritanos de hoje, gente que provavelmente jamais sentiu sede, prefiram deixar o Rio São Francisco escorrer para o Atlântico como uma torneira esquecida aberta.

(Gazeta Mercantil/Caderno A - Pág. 3)(Durval Guimarães - Secretário de Redação da sucursal da Gazeta Mercantil em Belo Horizonte.)


 
     
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