Opiniões
Conciliação
O Globo - Editorial
05/05/2005
Talvez não haja no Brasil projeto de obra pública tão antigo e controvertido quanto o da transposição de águas do Rio São Francisco para abastecer o semi-árido do Nordeste. Desde D. Pedro II o empreendimento é um sonho para uns, e pesadelo para outros. Os defensores, por óbvio, estão nos estados a serem beneficiados pelo projeto - Rio Grande do Norte, Ceará, Paraíba e Pernambuco - e a oposição se entrincheira em Minas Gerais, Bahia, Sergipe e Alagoas, banhados pelo São Francisco.
Os interesses serão inconciliáveis - como têm sido há mais de cem anos - se não houver o bom senso de se aceitar a palavra final dos técnicos. É o que o governo tem tentado. A primeira providência foi reduzir as ambições da obra, que de “transposição” transformou-se em um sistema de “interligação” de bacias - a do São Francisco com as de rios não perenes do semi-árido. A diferença está num volume menor de água a ser transferido, o que - deve ter imaginado o MINISTéRIO DA INTEGRAçãO - aplacaria a oposição ao projeto.
Não tem sido assim. Quando interesses regionais se articulam com grupos de grande capacidade de mobilização, como o de ambientalistas, criam-se barreiras políticas quase intransponíveis. E nessas circunstâncias, o aspecto técnico, que deveria ser prioritário, é relegado a segundo plano.
O governo garante que ao utilizar só 3% da vazão do rio, a interligação de bacias não causará danos ao São Francisco. O argumento deveria ser suficiente para viabilizar uma idéia que ajudará 28 milhões de pessoas. Na semana passada, o Ibama concedeu licença prévia ao projeto. Foi importante avanço. Mas nada garante que os embates não continuarão na Justiça.
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