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Opiniões
Estresse de água
O Povo - Fortaleza CE
Cássio Borges
28/04/2005
No meu último artigo publicado neste jornal,
no dia 19 de fevereiro último, sob o título
''Os Rumos da Transposição'', dizia que
os opositores do Projeto de Interligação
de Bacias do Rio São Francisco com as bacias do
Nordeste setentrional usavam de argumentos estapafúrdios
para justificarem seus posicionamentos contrários à realização
desse empreendimento. Citei o caso da incompreensível
oposição do Estado de Minas Gerais que,
no meu entendimento, não tem nada a ver com essa
questão. Digo isto porque o ponto de captação
da água (estação de bombeamento)
do referido projeto, situado a altura da cidade de Petrolina-PE,
está nada mais, nada menos do que a 2.000 quilômetros
(pasmem!) distante daquele estado. Em que, ou no que,
o Estado de Minas Gerais será prejudicado com
esse projeto? O mesmo se pode dizer do Estado da Bahia
que continuará com suas águas intocáveis
nos 900 quilômetros percorridos pelo Rio São
Francisco no seu território. Alagoas e Sergipe
estão reclamando, como se diz na gíria,
de ''barriga cheia'' para melhor caracterizar com esta
expressão popular a posição incompreensível,
nada coerente, daqueles dois estados. Isto porque anterior à construção
da barragem de Sobradinho (um empreendimento federal)
o Rio São Francisco tinha uma vazão mínima,
em sua foz, da ordem de 700 m3/s. Atualmente, graças àquele
reservatório, a vazão continua naquele
estirão é de 2.060 m3/s. O que vão
fazer esses dois estados com tanta água? Simplesmente,
contemplar serem desperdiçadas para o mar. É só o
que podem fazer. Enquanto isto negam para o Nordeste
semi-árido, a ínfima quantia de 26 m3/s,
uma ''cuia d'água'', como disse o Presidente Lula
da Silva. De relance, vale a pena comentar, o que disse
em artigo na Folha de São Paulo, no dia 20 de
fevereiro último, o geógrafo Aziz Ab'Saber,
diga-se de passagem um eminente brasileiro, que em relação
a esse empreendimento, simplesmente o colocou na vala
comum dos projetos fantasiosos ao afirmar que os que
o defendem são ''pseudostécnicos'', como
se nós nordestinos fossemos obrigados a aceitar
todas as blasfêmias ditadas pelos nossos irmãos
sulistas que nos vêem sob o estigma da ''indústria
das secas''... . Bendita ''indústria'' que viabilizou
todas as formas de vida em nossa região, uma das
mais áridas do planeta. Outra alegativa inaceitável
que os opositores do projeto da interligação
de bacias se fundamentam é que nossa região
tem muita água, portanto ''água não é problema''.
O conceituado Consultor Nacional da Comissão Pastoral
da Terra-CPT, Roberto Malvezzi, ancorado nesta tese,
em amplo artigo, cometeu seu maior pecado ao afirmar,
no caso do Ceará, tomando como exemplo, que a
capacidade total da água armazenável nos
açudes já construídos, de 15,5 bilhões
de metros cúbicos, era ''água disponível''.
Em carta que fiz para aquele ilustre Consultor, mostrei
o engano por ele cometido dizendo-lhe que dos 15,5 bilhões
de metros cúbicos de água acumuláveis,
apenas 20% pode ser considerado como ''água disponível''
para os diversos usos. Isto, em vista da evaporação
que aqui chega ao elevado índice de 2.500 milímetros,
enquanto chove, em média, no sertão, apenas
600 a 700 milímetros, havendo um déficit
hídrico da ordem de 1.800 milímetros que
só pode ser compensado pela construção
de açudes ou, no caso, pela importação
de água de outras bacias vizinhas. Malvezzi calculou,
equivocadamente, a disponibilidade hídrica social
do Estado do Ceará como sendo de 2.279 m3/hab/ano,
porém corrigindo o erro que ele cometeu, no que
diz respeito à questão da ''água
disponível'', este valor chega a ser de apenas
nº 453 m3/hab/ano. Se levarmos esse dado para a
classificação da ONU, chega-se à preocupante
conclusão de que o Estado do Ceará situa-se
bem abaixo da condição de ''estresse de água'',
ou seja, a disponibilidade hídrica social por
habitante é bastante menor do que os 1.000 m3/hab/ano.
Mais grave ainda, que menos de 500 m3/hab/ano que, como
foi visto, é o caso real do Estado do Ceará,
significa sério problema de ''escassez de água'',
segundo àquela organização mundial.
Cássio Borges é engenheiro civil, ex-Diretor
Regional do DNOCS e de sua Diretoria de Estudos e Projetos.
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