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Novos horizontes para o semi-árido
Jornal da Cidade - Sergipe

* Pedro Brito - chefe de gabinete do Ministério da Integração Nacional e coordenador-geral do Projeto São Francisco

17/04/2005


Quando Marco Antônio Macêdo, em 1847, na cidade cearense do Crato, sugeriu pela primeira vez que as águas do rio São Francisco fossem levadas a mais nordestinos, talvez não imaginasse que tanto tempo passaria até que seu sonho virasse realidade. Naquela época não havia condições técnicas para conduzir o Velho Chico a outras localidades. Hoje, além da tecnologia, há a decisão política do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de tirar esse projeto do papel.
O governo federal está perto de iniciar a obra mais esperada pelo Nordeste, que há séculos sofre com o problema da seca. Cidades inteiras padecem diante da escassez de água. A integração do São Francisco com as bacias hidrográficas do sertão vai permitir a transferência para abastecimento de rios, açudes e reservatórios de quatro Estados, durante o período de estiagem, e beneficiará 12 milhões de moradores do semi-árido, a área mais pobre do país.
Não haverá qualquer prejuízo ambiental ou para as atividades econômicas desenvolvidas à margem do rio. Ao contrário. O programa de revitalização da bacia do São Francisco vai recompor as áreas degradadas e ampliar a capacidade hídrica em volume superior ao que será retirado. O povo sergipano não será prejudicado com a obra. A revitalização do Velho Chico prevê a recuperação das áreas degradadas, a recomposição das matas ciliares, o combate ao assoreamento do rio, o tratamento dos esgotos, além de projetos de educação ambiental e de piscicultura.
Apesar de ser ambientalmente sustentável e de fazer justiça a uma população com a qual todo o país tem uma dívida histórica, o projeto ainda encontra resistência em certos setores. A grande maioria é produto da desinformação. Por isso, vale a pena esclarecer algumas questões.
Ao contrário do que muitos apregoam, o rio dispõe, sim, da água necessária para a distribuição prevista no projeto, o que já foi atestado pela Agência Nacional de Águas. Sem qualquer desvio de curso, apenas 1% da água que o São Francisco joga no mar será captada para consumo humano e animal. A captação ocorrerá abaixo da barragem de Sobradinho. A partir dali surgirão dois eixos: o Norte, que será iniciado próximo a Cabrobó (PE), e o Leste, que começará na barragem de Itaparica (divisa de Pernambuco com a Bahia).
A água, desviada por dois canais, será redistribuída em Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. Além de abastecer milhares de cisternas e reservatórios em comunidades ao longo desse percurso, também será levada por adutoras a pequenas, médias e grandes cidades, promovendo o desenvolvimento econômico e social da região.
Pode-se prever a transformação no Polígono das Secas. A chegada da água permitirá o aproveitamento de 186 mil hectares de terras agricultáveis e a criação de mais de 200 mil empregos. Também vai melhorar as condições sanitárias e reduzir os problemas sociais decorrentes do fator ambiental desfavorável.
Além de beneficiar milhões de nordestinos, a criação de sustentabilidade no semi-árido vai reduzir a migração forçada pela seca. A pressão migratória, como se sabe, tem causado problemas sérios às grandes cidades do país, como a ampliação do desemprego e aumento da criminalidade.
Diante de tantas vantagens, para todo o país soa até estranho que se questione o custo da obra, estimado em R$ 4,5 bilhões. Para quem não sabe, esse mesmo valor foi gasto só nas duas últimas estiagens com medidas paliativas que há mais de um século escamoteiam a fome de milhares de brasileiros para alimentar a indústria da seca. A integração do São Francisco quebra este ciclo perverso. Por isso é uma grande conquista para todo o Brasil.
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