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Opiniões
Rio São
Francisco: a Brasília de Lula
A transposição é obra
com a mesma dimensão que a da transferência
da capital
Jornal do Brasil
* Paulo Lustosa
26/03/2005
Todos os grandes empreendimentos humanos, aqueles que
rompem paradigmas e renovam e ampliam de maneira definitiva
os horizontes da coletividade, são precedidos
de atitudes céticas, que tentam barrá-lo,
em nome da razão e do bom senso.
Camões, no Canto IV d"Os Lusíadas,
fixou no Velho do Restelo, esse arquétipo da incredulidade.
Diante da esquadra de Vasco da Gama, que, em 1497, se
preparava para a epopéia das Índias, o
personagem, ""de aspecto venerando, que ficava
nas praias, entre a gente"", deu o seu recado
desanimador, que se resumia no clássico ""não
vai dar certo"".
Mas deu. E aí não se sabe o que, a respeito,
disse o Velho. E é esse também outro aspecto
indefectível nessas circunstâncias: diante
do sucesso da empreitada, os que a agouraram desaparecem,
como se jamais tivessem existido. Basta lembrar o que
aconteceu aqui, no Brasil, no período que precedeu
a construção de Brasília.
Juscelino foi execrado, chamado de louco, irresponsável,
etc. Somente um louco se aventuraria a construir uma
cidade no meio do deserto, ligando o nada a coisa nenhuma.
O Velho do Restelo, personificado, entre outros, na falecida
UDN, valeu-se dos mais sofisticados e cartesianos argumentos
para barrar uma empreitada que iria mudar definitivamente
a geopolítica nacional, ampliando nossa fronteira
agrícola e política e estabelecendo condições
para uma efetiva conquista de nosso território. É absolutamente
improvável que ainda detivéssemos hoje
o domínio da Amazônia se Brasília
não existisse.
Foi ela, centralizando a capital, que permitiu o início
do processo de interiorização do desenvolvimento.
Hoje, o chamado agribusiness, que tem no Planalto Central
o seu eixo, sustenta nossas exportações
e é um dos itens fundamentais de nossa economia.
Onde estão agora os ""velhos do Restelo"" da
UDN que buscavam desacreditar JK?
Esse preâmbulo vem a propósito de outra
obra seminal, em pauta já há alguns anos,
e até agora não iniciada graças à ação
dos ""velhos do Restelo"" caboclos.
Refiro-me à transposição das águas
do Rio São Francisco, empreendimento monumental,
destinado a redimir econômica, política
e humanitariamente uma das regiões mais sofridas
do país - a região Nordeste.
Não faltam argumentos de toda ordem. Uns invocam
o meio ambiente, outros os gastos orçamentários,
outros, ainda, a inconveniência política.
Todos padecem de miopia empreendedorial. Detêm-se
na árvore e não vêem a dimensão
da floresta. Felizmente, o presidente Lula é sensível
ao desafio. Não sei se já vislumbrou todo
o seu sentido revolucionário. A transposição é a
Brasília de Lula. É obra com a mesma dimensão
renovadora e ampliadora de horizontes que a da transferência
da capital nos anos 60.
Os argumentos de ordem ambiental são fartamente
respondíveis com outros da mesma ordem. É possível
efetuar o empreendimento respeitando todas as premissas
ecológicas, revitalizando o rio e levando-o a
populações carentes, permitindo que tenham
acesso ao progresso e ao bem-estar. Somente na região
do semi-árido, temos hoje 23 milhões de
brasileiros - quase uma Argentina inteira -, desprovidos
de meios básicos para sobreviver. Morre-se de
sede, desnutrição e insalubridade. No semi-árido,
a mortalidade infantil é 95% maior que média
nacional. Em Fortaleza, 55% da mortalidade infantil deriva
de contaminação hídrica.
Os ""privilegiados"" migram para
os grandes centros, pressionando ainda mais os serviços
urbanos e sujeitando-se ao ambiente de violência
e precariedade das periferias. A resistência de
algumas lideranças políticas dos estados
por onde passa o São Francisco não condiz
com a grandeza do próprio Rio, que ainda detém
a legenda de ""rio da INTEGRAçãO
NACIONAL"". Com a transposição,
mais que nunca o será.
Água é bem essencial. É preciso
não perder de vista a hierarquia de seu uso, cuja
prioridade é a manutenção da vida
humana. E é ela que estará em pauta, sob
todos os aspectos. A transposição, além
de prover a sede e a fome de milhões, garantindo
safras e pastos, gerará empregos, fará circular
a renda, reduzirá as migrações,
permitindo que, numa palavra, a cidadania chegue a lugares
por onde nunca passou, nestes cinco séculos de
história nacional.
O presidente Lula, nordestino e migrante, que conheceu
de perto as agruras da escassez de água, precisa
enfrentar as resistências que o empreendimento
ainda gera. São resistências político-paroquiais,
sem consistência, que podem ser superadas com a
conscientização da opinião pública
- inclusive a do Centro-Sul do país - para a grandeza
do que está em jogo. Deve, o próprio presidente,
tal como JK, fazer-se presente nos canteiros de obras,
tocá-las de perto, como um Israel Pinheiro redivivo.
Se o fizer, receberá da história a mesma
distinção que esta concede a Juscelino,
cujos críticos sumiram na poeira do tempo. A transposição
redime uma região que abriga 40 milhões
de brasileiros e a integra, de maneira pujante, à economia
nacional. Não pode haver iniciativa mais eficaz
de inclusão social que esta. Esta será a
marca maior do governo Lula..
* Secretário-executivo do Ministério
das Comunicações
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