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Opiniões
Estresse de Água
O Povo - Ceará
Cássio
Borges
26/03/2005
No meu último artigo publicado neste jornal, no
dia 19 de fevereiro último, sob o título “Os
Rumos da Transposição”, dizia que
os opositores do Projeto de Interligação
de Bacias do Rio São Francisco com as bacias do
Nordeste setentrional usavam de argumentos estapafúrdios
para justificarem seus posicionamentos contrários à realização
desse empreendimento. Citei o caso da incompreensível
oposição do Estado de Minas Gerais que,
no meu entendimento, não tem nada a ver com essa
questão. Digo isto porque o ponto de captação
da água (estação de bombeamento)
do referido projeto, situado a altura da cidade de Petrolina-PE,
está nada mais, nada menos do que a 2.000 quilômetros
(pasmem!) distante daquele estado. Em que, ou no que,
o Estado de Minas Gerais será prejudicado com
esse projeto? O mesmo se pode dizer do Estado da Bahia
que continuará com suas águas intocáveis
nos 900 quilômetros percorridos pelo Rio São
Francisco no seu território. Alagoas e Sergipe
estão reclamando, como se diz na gíria,
de “barriga cheia” para melhor caracterizar
com esta expressão popular a posição
incompreensível, nada coerente, daqueles dois
estados. Isto porque anterior à construção
da barragem de Sobradinho (um empreendimento federal)
o Rio São Francisco tinha uma vazão mínima,
em sua foz, da ordem de 700 m3/s. Atualmente, graças àquele
reservatório, a vazão continua naquele
estirão é de 2.060 m3/s. O que vão
fazer esses dois estados com tanta água? Simplesmente,
contemplar serem desperdiçadas para o mar. É só o
que podem fazer. Enquanto isto negam para o Nordeste
semi-árido, a ínfima quantia de 26 m3/s,
uma “cuia d`água”, como disse o Presidente
Lula da Silva..
De relance, vale a pena comentar, o que disse em artigo
na Folha de São Paulo, no dia 20 de fevereiro último,
o geógrafo Aziz Ab`Saber, diga-se de passagem
um eminente brasileiro, que em relação
a esse empreendimento, simplesmente o colocou na vala
comum dos projetos fantasiosos ao afirmar que os que
o defendem são “pseudostécnicos”,
como se nós nordestinos fossemos obrigados a aceitar
todas as blasfêmias ditadas pelos nossos irmãos
sulistas que nos vêem sob o estigma da “indústria
das secas”... . Bendita “indústria” que
viabilizou todas as formas de vida em nossa região,
uma das mais áridas do planeta.
Outra alegativa inaceitável que os opositores
do projeto da interligação de bacias se
fundamentam é que nossa região tem muita água,
portanto “água não é problema”.
O conceituado Consultor Nacional da Comissão Pastoral
da Terra-CPT, Roberto Malvezzi, ancorado nesta tese,
em amplo artigo, cometeu seu maior pecado ao afirmar,
no caso do Ceará, tomando como exemplo, que a
capacidade total da água armazenável nos
açudes já construídos, de 15,5 bilhões
de metros cúbicos, era “água disponível”.
Em carta que fiz para aquele ilustre Consultor, mostrei
o engano por ele cometido dizendo-lhe que dos 15,5 bilhões
de metros cúbicos de água acumuláveis,
apenas 20% pode ser considerado como “água
disponível” para os diversos usos. Isto,
em vista da evaporação que aqui chega ao
elevado índice de 2.500 milímetros, enquanto
chove, em média, no sertão, apenas 600
a 700 milímetros, havendo um déficit hídrico
da ordem de 1.800 milímetros que só pode
ser compensado pela construção de açudes
ou, no caso, pela importação de água
de outras bacias vizinhas. Malvezzi calculou, equivocadamente,
a disponibilidade hídrica social do Estado do
Ceará como sendo de 2.279 m3/hab/ano, porém
corrigindo o erro que ele cometeu, no que diz respeito à questão
da “água disponível”, este
valor chega a ser de apenas n 453 m3/hab/ano. Se levarmos
esse dado para a classificação da ONU,
chega-se à preocupante conclusão de que
o Estado do Ceará situa-se bem abaixo da condição
de “estresse de água”, ou seja, a
disponibilidade hídrica social por habitante é bastante
menor do que os 1.000 m3/hab/ano. Mais grave ainda, que
menos de 500 m3/hab/ano que, como foi visto, é o
caso real do Estado do Ceará, significa sério
problema de “escassez de água”, segundo àquela
organização mundial.
Cássio Borges é engenheiro civil, ex-Diretor Regional do
DNOCS e de sua Diretoria de Estudos e Projetos.
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