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Opiniões


A Transposição das Águas do Rio São Francisco

Medeiros Braga

01/04/2005


"O planeta suspira, a nuvem chora,
Rolam rios de pranto para o mar".
Rubênio Marcelo

Soergo a nau da poesia,
Tomo os remos, a direção,
Pra navegar no deserto
Que se inunda na aflição,
Porque ao povo os insanos
Há cento e cinqüenta anos
Lhes negam a transposição.

Esse povo são os filhos
Deserdados do Nordeste,
Do Curimatau, Cariri,
Seridó, Sertão e Agreste
Que postos à provação
Por sua garra já são
Autênticos cabras da peste.

A maior dificuldade,
Se desejar conhecer
Se junte a outro aliado
Acomodado ao poder,
Pra ele vir provar, também,
A qualidade que tem
Nossa água de beber.

Venha ao nosso cariri
Senhor doutor presidente,
Para ver de perto o sal
Que `stá em toda vertente,
Na cacimba lá de baixo,
No poço, açude ou riacho,
No rio mesmo de enchente.

Caiu do ar sobre a terra
Escorre a água salgada.
E quem beber dela fica
Com a saúde abalada.
Aqui pelo cariri
As opções de suprir
Este mal são quase nada.

E já ficou comprovado
Que o problema, em verdade,
Onde ele foi resolvido
Viu-se outra realidade
Com menor êxodo rural
E o índice, até radical,
Infantil da mortandade.

As reservas se esgotam
Logo que o inverno passa,
A terra fica mais árida,
A água se torna escassa,
E para aumentar a mágoa
Quanto mais escassa a água
Mais o sal nela se grassa.

Os poços são perfurados
E o resultado aparece,
Sempre a vazão é pequena
E o seu teor desmerece.
E o seu sal tão acrescido
É mais forte que o pedido
Que o povo faz pela prece.

Da água se faz o exame
E a recomendação
É que não se beba dela
Pra não sofrer reação,
Mas, pela dificuldade
E a grande necessidade,
Não segue o povo a lição.

Pra reduzir algum efeito
Maléfico que ali emplaca
A água que vem da chuva
No cristalino se estaca...
Quando muito se processa
Sobre um telhado, e acessa
Em uma cisterna de placa.

Milhões pelo semi-árido
Vêm sofrendo pra valer,
Não só por água pra banho
Ou pra lavoura crescer,
O seu calvário de dor
Está na falta, doutor,
De água para beber.

Nós só vemos paliativos
Como forma de solução,
Principalmente, nos meses
Que antecedem a eleição.
É quando o politiqueiro
Consegue voto e dinheiro
Com pipas em caminhão.

Portanto, a alternativa,
A nossa única opção
É a água do Velho Chico
Que, feita à transposição,
Virá, implantada a rede,
Matar no Nordeste a sede
De grande população.

Na língua indígena, "opara";
E um grande rio "rio-mar,
E os índios ao Velho Chico
Quiseram-no denominar.
Por ser longo e volumoso
Enquanto vai caudaloso
Lá no Atlântico desaguar.

A água do São Francisco,
Em pequeníssima fração,
Pra o povo do semi-árido
É a única solução...
Esse fato é o resultado
De cada ciclo estudado
Dos climas da região.

Mas, há forte resistência
E maior desumanidade
De alegações infundadas,
Fundadas na insanidade,
De uma elite, em revelia,
Que põe fogo à utopia
Falseando a realidade.

Mas, o Rio São Francisco
Não é um rio estadual
Ele banha cinco estados,
É, portanto, nacional.
É, pois, um rio federado
E não pode ser tratado
Com bairrismo eleitoral.

Pela sua exuberância,
Sua força, o potencial,
Por toda sua extensão
Ele é ultra regional.
Isento de desvario
O São Francisco é o Rio
Da Integração Nacional.

O rio é tão expressivo
No seu porte de ribeiro,
Que é hoje consagrado,
Até mesmo no estrangeiro
Tamanho o seu desafio,
Entre todos, o maior rio,
Totalmente, brasileiro.

O egoísmo e a vaidade,
O "pratiotismo" também,
Dos defensores falsários
Visando lucrar em alguém,
Precisam ser afastados
Pra que os injustiçados
Usufruam desse bem.

Lá da nascente do rio
Ao local de captação
Dista por dois mil km,
Sendo a água tirada, então,
De apenas dois por cento
Do volume em movimento
Na sua média vazão. .

Só se pretende um pouquinho
Da água que corre ao mar,
Só um pouco do que vai
No oceano desaguar.
E tão-só pelos momentos
De seca, onde os sedentos
Já não têm de onde tirar.

Os impactos ambientais
Que hoje são alegados
Só as elites promovem
Dentro dos seus estados
Com o assoreamento,
Tóxico, desmatamento,
Pra climas serem mudados.

Em "Os Sertões", o Euclides
Da Cunha, em seu intelecto,
Ao estudar todos passos
Do ser humano de perto
Já dizia, com firmeza,
"Que o homem, por natureza,
É um fazedor de deserto.";

A partir do nosso índio
E da colonização,
Passando pelas bandeiras
E as fazendas do sertão,
Vem o homem desmatando
E, em consequência, causando
A desertificação.

A própria queima do mato
No campo ainda se prima.
Com a derrubada da mata
Sem controle e sem estima,
Cria-se todo um problema
Que atinge o eco-sistema
Com a mudança do clima.

Rompendo com este hábito,
E seguindo esta lição,
Resgatemos nossas matas
De multi-utilização
Ao plantarmos, todos nós
A árvore e mante-la após
Feita a TRANSPOSIÇÃO.

Os impactos ambientais
São o abuso da utilidade
Das grandes irrigações
Com a irracionalidade
Da inundação e sucção
Que atingem, com a redução,
Do rio a capacidade.

O que existe é o egoísmo
Desses novos coronéis,
Das águas desperdiçadas
Que fogem pelo viés
E da mata destruída
Com sua ribeira despida
Sem uma planta aos seus pés.

O que há é forte trama
Pra inviabilizar o projeto,
Há uma elite torcendo
Pra que isso não dê certo,
Sofismas, dificuldades
Lançam-se infinidades
Para abortar seu decreto..

E essa história vai longe,
Antecede a imperial,
Em mil oitocentos dezoito
No Crato, ouvidor, um tal
José Raimundo Barbosa
Tinha a proposta briosa
De trazer água em canal.

Um projeto imperial
Também tratava transpor
As águas do Velho Chico
Ao semi-árido em primor
Para acabar com o drama
Da seca que tanto inflama
Os corações de clamor.

Mas, por motivos alheios
Aos do grande capital
Elites do sul-sudeste
Com poder descomunal,
Pensando na mão-de-obra
Migrante daqui, com sobra,
Davam a palavra final.

Na história da república,
Nas instâncias do poder,
Existe, hoje, um consenso
Que diz pautado em saber
Que uma vida saudável
Só se torna sustentável
Se há água pra beber

E a Agência Nacional
De Água deste país
Reafirma que o rio tem
O que a ciência já diz:
Condições, porte e atino
De fazer o Nordestino
Do semi-árido feliz.

Na tradição nordestina,
Na cultura de sua gente,
Não existe esse mal hábito
De se negar, duramente,
Um copo dágua que vem
Do céu, pra fazer o bem
A todo e qualquer vivente.

E hoje, principalmente,
No Agreste ou Cariri
Onde sua água salobra
Por vezes faz falta ali,
Crianças bolam na rede
Moribundas pela sede
Sem uma gota pra ingerir.

Negar um copo com água
A quem tem sede é um crime,
É o mais insano egoísmo
Do qual ninguém se redime,
É um delito abominável
Do covarde miserável
Cuja maldade ele exprime.

O homem simples, humano,
Não tem esta formação,
Só os grandes egoístas
Sem alma, sem coração,
Vêm tentando usar o povo
Para criar um estorvo
À vital transposição.

O povo de alguns estados
Está sendo persuadido
A negar um copo d`água
Pra seu irmão excluído
Que nunca teve o acesso
A partilhar do progresso,
Sequer beber desse líquido.

Vamos, então, convencer
Os nossos irmãos baianos,
Alagoanos, mineiros
E ainda os sergipanos
Pra, pondo um fim à disputa,
Efetivarmos essa luta
De princípios tão humanos.

Senhor doutor presidente,
Eu volto a falar de novo,
A falta dágua que passa
O semi-árido é um estorvo.
Matar a sede arrasante
E o mínimo que um governante
Deve fazer para um povo.

Abra as comportas do rio
Durante a seca e o verão,
E mate a sede de um povo
Que não tem outra opção.
Urgencie essa ação nobre,
Abra a porteira do cofre
E faça a TRANSPOSIÇÃO!


 
     
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