Opiniões
Dissipando temores
O Povo -
Ceará
Editorial
01/04/2005
Nos últimos dias tem-se intensificado a
reação dos segmentos contrários à implementação
do Projeto de Integração do rio São
Francisco com as bacias hidrográficas do sertão
nordestino. Esses setores - alguns dos quais bem intencionados
- pretendem jogar as últimas cartadas no sentido
de impedir uma obra que é esperada desde 1847
pelos nordestinos das áreas mais castigadas pela
estiagem cíclica, onde se abriga uma população
de cerca de 12 milhões de pessoas.
Todo processo transformador provoca uma reação natural
de resistência de quem está adequado ao status quo reinante.
Não seria diferente quando está em jogo a mudança
de uma estrutura física de grandes proporções, como
o reordenamento de uma bacia hidrográfica, em torno da qual se
sedimentou todo um sistema de organização econômica,
social e política e sua conseqüente dimensão cultural.
De um certo tempo para cá, a questão climática nordestina
passou a ter uma abordagem mais racional e científica do que a
postura tradicional de recusa a uma relação dialética
com essa realidade adversa. Descobriu-se que é muito mais vantajoso
conviver com os aspectos incontornáveis dessa realidade e tirar
o melhor proveito possível dela do que simplesmente encará-la
como um flagelo intempestivo e traiçoeiro, contra o qual se trava
refregas sempre infrutíferas.
A irregularidade das chuvas ou a prolongada exposição a
um sol inclemente não são motivos para se inviabilizar a
constituição de sociedades produtivas, como se pode observar
em algumas partes do planeta, desde que se tenha o suporte da tecnologia.
Ter sol durante o ano inteiro, por exemplo, pode ser bom para o Turismo
ou para a produção de mais de uma colheita para certas culturas,
desde é claro, que se tenha água.
O fornecimento de um fluxo de água permanente capaz de dar suporte
estratégico, em termos de consumo, ao abastecimento de importantes
centros urbanos e de impedir a desorganização cíclica
da atividade produtiva no Interior, sempre foi o sonho dos habitantes
do semi-árido. Um dos recursos mais à mão para viabilizá-lo
vem sendo discutido desde à primeira metade do século XIX:
levar a água do rio São Francisco até às bacias
do sertão. Depois de mais de 150 anos, finalmente a idéia
começa a sair do papel graças à presença de
um filho do semi-árido, na presidência da República
e sua vontade política decidida de realizá-lo.
Desde logo, surgiram justas indagações sobre possíveis
riscos de se cometer um desastre ecológico, tendo em vista exemplos
históricos de integrações hidrográficas mal-sucedidas
em outros países. A primeira dúvida é se a retirada
dessa água, através de dois canais de cerca de 700 quilômetros
de extensão, 25 metros de largura e 5 metros de profundidade não
iria extenuar o já combalido rio São Francisco e prejudicar
os estados doadores - Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe.
Essa dúvida foi respondida negativamente, já que apenas
1% da água que o rio joga todos os dias no oceano (portanto, sem
serventia) - é a que será utilizada na transposição.
A segunda dúvida é como o rio São Francisco vai
manter o atual fluxo se este já está decaindo por conta
da destruição das matas de sua cabeceira e de suas margens
e de outras tantas agressões. O governo já iniciou as obras
de revitalização prévia do rio, que incluirá desde
o reflorestamento até o tratamento dos esgotos das comunidades
que jogam detritos no rio.
Quanto ao custo das obras - R$ 4,5 bilhões - ele corresponde ao
que foi gasto pelo governo nas duas últimas secas, apenas em medidas
emergenciais, que se esgotam em si mesmas. Ao passo que os recursos empregados
no projeto de integração de bacias terão um efeito
estruturante e, portanto, duradouro sobre toda uma região, dando-lhe
suporte para construir efetivamente um sistema de vida mais estruturado
e aberto à exploração de todas as suas potencialidades
produtivas.
Esse projeto tem um caráter estratégico como principal
suporte de uma rede mais ampla de providências destinadas a dar
uma melhor qualidade de vida às populações do semi-árido,
dentre as quais tem uma importância fundamental (e que não
sofrerá solução de continuidade) o programa de construção
de cisternas de placa e o de aproveitamento mais amplo das águas
represadas nos açudes. São programas complementares - um
não exclui nem dispensa o outro - o que deve tranqüilizar
os defensores desses programas..
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