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Opiniões
Os rumos
da transposição
O Povo - Ceará
Cássio Borges
19/02/2005
Não me tendo sido possível comparecer à Audiência
Pública sobre o Projeto de Integração de Bacias Hidrográficas,
realizada no último dia 15 deste mês (sábado), às
14 horas, no Auditório da Faculdade de Direito, em Fortaleza, aguardei
ansiosamente para ver, através dos jornais, as principais discussões
havidas por ocasião dessa tão importante reunião, a primeira
de uma série de outras que, também, serão realizadas em
outros estados.
Confesso que ao ler os jornais de segunda-feira,
dia 17, senti uma profunda decepção por duas razões:
Primeiro, porque uma matéria jornalística, do maior interesse
social e econômico para a nossa Região, no meu entendimento,
não mereceu a devida cobertura por parte da imprensa local ou os
jornalistas presentes à reunião, não encontraram
a suficiente motivação para fazer uma abordagem mais rica
e detalhada sobre o tema em discussão. Segundo, por constatar a
enorme diferença, em termos de destaque (realce), entre os jornais
daqui e os de outros estados como os do Rio de Janeiro, São Paulo,
Brasília e Pernambuco, entre outros que, com muita freqüência,
vêm fazendo amplas matérias, de página inteira, trazendo
os mais estapafúrdios argumentos e declarações contrárias à realização
desse empreendimento.
O que eu esperei dessa Audiência Pública em Fortaleza? Esperava
ver, não só opiniões favoráveis ao Projeto
como, no plano técnico-científico, ouvir pareceres opostos,
aos que são contrários à realização
dessa obra. Digo isto, porque não vejo nenhuma consistência
técnica na oposição que o Estado de Minas Gerais
está fazendo ao Projeto no que se refere à transposição
propriamente dita. O problema da revitalização do rio é outra
questão sobre a qual todos estamos de acordo. É uma questão
a parte. O mesmo em relação a Baia em cujo território
o Rio São Francisco, em termos de vazão, está e vai
continuar da mesma maneira de quando Pedro Álvares Cabral descobriu
o Brasil no ano de 1500. Ou seja, o rio não vai ficar mais poluído
ou mais degradado no trecho baiano por causa da transposição.
Afirmar isto é um contra-senso, até porque a transferência
de água somente será feita depois da barragem de Sobradinho,
já em pleno Estado de Pernambuco, com quase nenhuma influência
do Estado da Bahia.
E os Estados de Alagoas e Sergipe serão prejudicados? Inicialmente
devo dizer que o Rio São Francisco, depois a barragem de Sobradinho é,
de fato, um rio artificial. Em condições naturais, antes
da intervenção do homem, o rio tinha uma vazão mínima
em sua foz da ordem de 600 m3/s. Atualmente sua vazão regularizada
(contínua) é de 2.060 m3/s, graças ao efeito regularizador
da barragem de Sobradinho. Portanto, deste último valor, retirar
170 m3/s que fosse ou, como diz a nova versão do Projeto, 61 m3/s
não se pode, pela lógica e pelo bom senso, dizer que o Projeto
vai prejudicar os Estados de Alagoas ou de Sergipe, pois ambos os estados
ainda continuariam com uma vazão três vezes maior do que
a que tinham antes da construção da barragem de Sobradinho.
Aos que perguntam para quem será a água a ser transferida,
basta lembrar que os açudes Orós e Banabuiú, ambos
no Estado do Ceará, estavam completamente secos em dezembro de
2003. Somente foram reabastecidos graças às chuvas excepcionais
que ocorrerem em janeiro de 2004. Se não fosse este fenômeno
atípico da natureza, o Estado do Ceará teria experimentado
uma das maiores crises, de efeitos catastróficos, no abastecimento
de água de sua população. Situação
como essa poderá (e deverá) se repetir, inclusive com maior
freqüência na medida em que o consumo de água aumente,
infelizmente, com ou sem transposição, pois eu não
acredito neste Projeto com uma vazão de apenas 26 m3/s visando
beneficiar cinco estados.
Cássio Borges é engenheiro civil e Coordenador Técnico-Científico
da Sociedade dos Amigos do Dnocs-Soad.
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