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Opiniões
O show de Ciro
O Norte - Paraíba
Agnaldo Almeida
19/02/2005
Campina Grande está devendo um título de cidadania ao ministro
Ciro Gomes. Talvez até já o tenha concedido, mas nesse caso estaria
então devendo outras homenagens. Segunda-feira passada, enfrentando
um batalhão de jornalistas do eixo Minas-São Paulo, o ministro
literalmente implorou, “pelo amor de Deus”, para que os seus interlocutores
refletissem sobre a situação vivida hoje por Campina Grande,
com o problema do abastecimento d’água.
Era o programa “Roda Viva”, da TV Cultura, muito bem comandado
por Paulo Markum. O tema não podia ser outro: a transposição
de águas do Rio São Francisco. Pois o ministro deu um show. Falou
da necessidade de se garantir a segurança hídrica para 12 milhões
de brasileiros (a população nordestina que será beneficiada
com o projeto) e o tempo todo procurou mostrar que, sem a transposição,
inúmeras cidades do Ceará, de Pernambuco, do Rio Grande do Norte
e da Paraíba estarão completamente inviabilizadas.
Mas foi no capítulo Campina Grande que ele mais se emocionou: Vocês
precisam entender que uma das cidades mais importantes do Brasil, como Campina
Grande, vive o problema de não ter água para beber. Só isso
já justificaria que se tomasse a água que o São Francisco
despeja no mar e se providenciasse a sua guarda. Não estamos querendo
desviar o rio. Queremos apenas que, em vez de ir pro mar, a água da
foz do rio possa atender aos milhões de nordestinos”.
Assisti, desde o começo, à entrevista do ministro. Fiquei impressionado.
Primeiro com o conhecimento que tem do problema. No seu arrazoado, Ciro separa
as coisas: a transposição tem como objetivo principal dar segurança
hídrica às bacias nordestinas. Sem esta segurança e afetada
pelo fenômeno cíclico da seca, a região não tem
como se desenvolver.
A questão do aproveitamento desta água para os projetos de irrigação é outra
coisa. Pode haver, sim, uma ação em favor da irrigação,
mas a prioridade da transposição não é esta. É a
garantia de que, havendo ou não seca, o nordeste setentrional sempre
disporá do mínimo necessário de água para abastecer
a sua população.
Impressionante também, ao longo do programa, foi perceber a má vontade
com que jornalistas de Minas Gerais e de São Paulo encaram o problema
da transposição. Tinha lá gente da Folha de S. Paulo,
do Estadão e de outros veículos. Só perguntavam pelos
gastos, pela indústria da seca e pelo aproveitamento que os coronéis
da região tirarão com o projeto.
O ministro, o tempo todo, querendo falar de sede humana, de falta d’água
para abastecer as famílias, e a turma insistindo na tese de que a transposição é tão
somente uma obra gigantesca que o governo Lula quer deixar para a imortalidade.
Não sou de interagir com programas televisivos. Acho um saco aqueles
convites para que os telespectadores liguem um certo número, dando a
sua opinião. Mas, dia seguinte, encaminhei um e-mail ao ministro. Obviamente,
congratulando-me com a sua exposição e, mais ainda, com o afeto
que ele, tão sinceramente, demonstrou ter para com Campina Grande. Recebi
uma resposta dele, também simpática, um dia depois.
É por isso que me ocorreu dizer aquele negócio sobre o fato de
Campina estar devendo uma homenagem ao homem. Nesse governo de Lula, não
conheço quem goste mais da cidade do que ele.
ASSEMBLÉIA
A Assembléia Legislativa retoma segunda-feira as suas atividades e,
não por coincidência, já no dia seguinte estará abrindo
um painel para discussão da transposição de águas
do Rio São Francisco. Aliás, não só discussão:
a Assembléia, sob a direção do deputado Rômulo Gouveia,
vai também criar uma espécie de comitê pró-transposição,
procurando mobilizar não só entidades representativas do Estado
como a população de um modo geral.
O engajamento da AL nesta questão, ainda mais se este movimento puder
atrair assembléias de outros Estados, é fundamental para que
se consolide na Paraíba e na região a idéia de que, com
a periodicidade da seca, só a transposição pode resolver
este problema de falta d’água.
SAIDEIRA
A coisa mais fácil do mundo, para quem está com saúde, é dar
bons conselhos para quem está doente. (Terêncio)
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