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Opiniões
Desfazendo equívocos
O Estado de S. Paulo
Marcondes Gadelha
06/12/2004
O recente anúncio de que o governo federal decidiu
tornar prioritária a obra de integração
do Rio São Francisco aos rios intermitentes do
Nordeste reacendeu, entre os adversários de sempre,
uma reação descabida contra o projeto,
que é a única opção tecnicamente
viável e confiável de levar água
a 12 milhões de nordestinos. Em alguns Estados
essa posição contrária chega a ser
apoiada discretamente por autoridades estaduais. A reclamação
nesses Estados contra a TRANSPOSIçãO não
tem procedência. Em sua maioria, a reação
apóia-se em sucessivos equívocos, que,
somados, levam a uma oposição intransigente
e pouco inteligente.
Um dos argumentos é que a água pertence
aos Estados que formam o Rio São Francisco. A
TRANSPOSIçãO do Rio São Francisco
está amparada na Constituição Federal,
que diz claramente que todo rio que cruza mais de um
Estado é patrimônio da União. O São
Francisco não pertence a nenhum Estado isoladamente
nem a grupos de Estados. Não procede, portanto,
a pretensão de alguns Estados de se proclamarem
donos do Rio São Francisco ou a tentativa de veto à sua
TRANSPOSIçãO. São posições
absurdas.
Outro argumento vazio é o de que, antes da TRANSPOSIçãO, é preciso
fazer a revitalização. O rio está morrendo, dizem.
Há dois aspectos inaceitáveis nessa formulação:
nem o rio está morrendo, nem há nenhuma razão para
só fazer a TRANSPOSIçãO quando terminar a revitalização.
As duas ações podem ser simultâneas, sem conflito,
nem precondição, que, na realidade, é uma manobra
para adiar indefinidamente a realização da obra. E há provas
disso. Os que vivem reclamando a revitalização do rio, na
verdade, já têm recursos para levá-la a efeito desde
1988 – e até agora não fizeram absolutamente nada.
A Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf) é obrigada,
por força de lei, a aplicar 6% do seu faturamento em obras de compensação
pela utilização da água para gerar energia elétrica.
Isso dá uma média de R$ 90 milhões por ano, a fundo
perdido. De 1988 até hoje, mais de R$ 1,35 bilhão foi repassado
para os Estados e municípios ribeirinhos. Com esse dinheiro nada
foi feito em termos de saneamento, replantio de mata ciliar, contenção
de encostas e controle de assoreamento. Com o anúncio da obra,
voltaram a falar em revitalização e a pedir verbas federais.
Mas aonde foi parar todo o dinheiro que a Chesf
repassou? Vê-se,
portanto, que a revitalização, para eles, é somente
retórica, uma maneira de ficar adiando a obra, pois é só nesses
momentos que tocam no assunto. Sou inteiramente favorável à revitalização,
mas não existe conflito entre a revitalização e a
TRANSPOSIçãO, a ponto de uma anteceder a outra, como condição
sine qua non. A poluição no São Francisco existe
apenas da Barragem de Sobradinho para trás. Os trechos médio
e alto do rio têm problemas, sim. Devastaram as matas ciliares para
utilização do carvão nos altosfornos das siderúrgicas
de Minas Gerais, há no rio metais pesados provenientes da mineração
clandestina e esgotos lançados diretamente nos afluentes. Belo
Horizonte joga seus detritos no Rio das Velhas, afluente do São
Francisco.
Os mineiros devem até falar em revitalização porque,
afinal de contas, eles causaram a poluição de seu trecho.
Mas, mesmo que não houvesse a revitalização, isso
não seria impedimento para a TRANSPOSIçãO.
Da Represa de Sobradinho até a foz, a água do rio é bastante
pura, uma das melhores do mundo, segundo estudos independentes. Outro
argumento equivocado é que a captação de água
no São Francisco pode matar o rio. Do ponto de vista ambiental,
esse é o projeto mais seguro do mundo, entre os de seu gênero,
porque ele tem três condições simultâneas não
existentes em nenhum outro lugar no mundo. A primeira é a relação
caudal-vazão derivada. Por aí afora, nunca é feita
uma TRANSPOSIçãO de menos de 10% da vazão firme.
Aqui, nós estamos falando de uma TRANSPOSIçãO mínima
de 26 metros cúbicos por segundo (1% da vazão do São
Francisco), o que é irrisório.
O segundo aspecto relevante é que os pontos de captação
são muito distantes das nascentes do rio, já próximos
do trecho final, quase 2 mil quilômetros abaixo das nascentes. Isso
são se encontra em outros projetos pelo mundo afora. O terceiro
ponto é a complementaridade entre os ciclos hidrológicos
do São Francisco e dos rios do Nordeste. Quando chove nas cabeceiras
do São Francisco, é quando há mais necessidade de água
no semiárido. E vice-versa. Quando São Francisco está mais
baixo, ocorrem as chuvas na Região Nordeste, não precisando
de muita água. Portanto não há concorrência
simultânea pela mesma água.
A confluência desses três elementos – relação
caudal versus vazão, pontos de captação e o caráter
intermitente da retirada – não se encontra em projetos similares.
Essa conjunção de fatores torna esse projeto muito seguro,
nos aspectos hidrológico e ambiental, o que é confirmado
pelo EIA-Rima da obra. É preciso que a sociedade brasileira conheça
a realidade sobre a TRANSPOSIçãO do Rio São Francisco
para não se deixar seduzir pelos equívocos intencionais
dos que se colocam, por várias razões, contra essa obra.
Marcondes Gadelha é deputado federal (PTB-PB)
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