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A água e o futuro do Nordeste
Folha de São Paulo

Rubens Tellechea Clausell *

11/11/2004


O Nordeste brasileiro é uma região prejudicada pela baixa reserva de água e poucas chuvas. As chuvas irregulares e a intensa insolação se estendem por quatro a cinco meses, repetindo-se a cada dez anos. São também fatores limitantes do desenvolvimento da agricultura no Nordeste: 1) a pouca profundidade dos solos e seu caráter pedregoso; 2) a salinidade dos açudes, por evaporação nas secas e por infiltração na vizinhança do mar; 3) a formação mineral.

Nesses últimos anos, com o aparecimento de líderes rurais, tem-se alcançado boa produtividade na agricultura e nos criatórios de bovinos, suínos, ovinos e aves. Mas ainda as populações locais vivem de produtos de maior custo. Há os que já conseguem operários melhores, ainda em média produção e em minifúndios fracionados que os fazem sonhar com as cidades. Migram com a esperança de trabalho em terras mais férteis, com águas regulares e produtivas, no Sul, Centro e Norte do Brasil. São os "sem-terra e sem esperança", mencionados pelo coordenador nacional do MST, João Pedro Stedile, que agora afirma que a reforma agrária no Brasil anda a "passos de tartaruga", no que tem razão. Acrescenta ele que "não há espaço para a reforma agrária" -o que não é verdade.

As afirmações de Stedile ocorreram em debate no Fórum Social Mineiro, onde desconsiderou a reforma agrária em todos os seus bons propósitos. Propósitos esses exeqüíveis com assistência técnica, maiores investimentos, administração comercial e coletiva e recursos para trabalhar em áreas maiores e as suprir com água.

Nos Estados do Nordeste, a Reforma Agrária Cooperativa (RAC), com diretivas políticas, assistência técnica e financiamento, terá sucesso em poucos anos. Sua agropecuária pode atingir altas produções, suprindo outros Estados e exportando, especialmente para o hemisfério Norte, valiosas frutas tropicais.

Esse movimento, combinando água, trabalho, tecnologia e dinheiro, elevará a produção nas cooperativas rurais -que, assistidas pelo Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) nos Estados e com unidades na proporção de seus territórios, tornarão o Nordeste exemplo mundial. A assistência financeira internacional, já oferecida ao presidente Lula, a ser regida pelo Banco do Nordeste, dentro de critérios técnicos predefinidos e operacionais, reformará a região.

Estamos sentindo esse progresso: a produção de abacaxi no vale do Jaguaribe, para exportação, no valor de US$ 6 milhões, com novos plantios de frutas sendo preparados, crescerá em vendas também na Europa, a maior compradora mundial de frutas, devido a trabalho realizado pela Embrapa. Em 2007 essa empresa pretende plantar 2.500 hectares, para faturar R$ 60 milhões. E exportar melão, caju processado sob diversas formas, suco concentrado, doce e seus externos caroços tostados.

Agricultores gaúchos iniciaram há mais de 20 anos, em Petrolina (PE), com águas do São Francisco e "sem TRANSPOSIçãO", a produção de uvas para vinho, em três colheitas a cada dois anos, e exportam o produto, além de muitas outras frutas. A Secretaria da Agricultura do Ceará relata que o sucesso na fruticultura nordestina foi possível por investirem em infra-estrutura hídrica, que permite ainda outros cultivares, para o mercado interno e o exterior.

Os Estados do Nordeste, recebendo as indispensáveis águas, poderão intensificar a produção de frutas, sob condições climáticas favorecidos pela proximidade do hemisfério Norte. Devemos preparar nossos portos e serviços diplomáticos, além de terras fertilizadas e com plantios adequados não só de árvores frutíferas, mas também de algodão e com produção de carnes diversas.

A grande tarefa será implantar unidades de RAC, ocupando tecnicamente suas terras e tornando possível vida digna para sua sofrida população. Tem urgência na região o trabalho tecnológico, econômico e social, considerando as suas peculiares condições. A RAC não foi iniciada por essa tarefa ter deixado de ser do Ministério da Agricultura. Sabemos que poderá ser realizada, com cooperação internacional e a dedicação de bons técnicos existentes nas unidades estaduais do Incra. O ministro Roberto Rodrigues tem grande vivência em cooperativas internacionais e não se eximirá de transferir sua experiência de professor em favor das populações nordestinas.


* Rubens Tellechea Clausell é engenheiro agrônomo

     
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