| |
 |
Opiniões
A transposição
deve “transpor” a burocracia
O Jornal - AL
Fernando Valença
01/11/2004
Fazer trocadilho não é o meu forte; nem
quero fazer humor: no máximo tentar manter a lucidez.
O assunto em destaque, atualmente, é o Projeto
de Integração do Rio S. Francisco! Os leitores
aguardam desconfiados, com toda razão. Se há um
projeto prometido pelos governos, desde o Império
(Séc. XIX) e jamais realizado, o da transposição
de água do rio S. Francisco, para o Semi-árido
nordestino é o tal... É inconcebível
que isto seja verdade; a menos que a gente se conforme
com o determinismo fatalista de que, nascer pobre e viver
no nordeste (sertões e cariris), é o mesmo
que aceitar como verdade suprema que, das duas uma: permanece
lá faminto (ou morre logo) atrelado à ilusão
de que “Deus quer assim, assim será”;
ou comete o gesto “supremo” de enfrentar
o mundo como migrante, deixando tudo para trás
e se aventurando a se perder de vez ou, “se tiver
sorte”, sobreviver feito gente! No seu próprio
País! Esta é a história de quantos
sertanejos? E desde quando? Não vou converter
este espaço em choramingos, afinal, quero falar
de uma desgraça nacional brasileira chamada seca
do Nordeste. São milhões de pessoas que
padecem fome e sede, muitas delas morrendo e junto com
elas seus animais e suas plantações...
Devido à irregularidade das chuvas, há escassez
de água, que, mesmo a que se cava no subsolo, é pouca
e de má qualidade.
O que transtorna é saber que se trata do tipo da questão
que pode ser resolvida plenamente! No caso do semi-árido do Nordeste, é uma
judiação não arregaçar as mangas e facilmente
eliminar aquele flagelo vergonhoso. Ninguém é autor do rio
São Francisco que, caprichosamente, provém de uma região
onde chove regular e copiosamente, recebe mais de 100 afluentes e desfila
generoso sua água doce por mais de 2.700 quilômetros, da
Serra da Canastra (MG), (banha todo o interior da Bahia, faz 90 graus
antes de Petrolina e segue banhando Alagoas e Sergipe) até entrar
no Oceano Atlântico, sem que ninguém tenha feito nada dele,
nem por ele. Ao contrário: lá mesmo onde nasce, a ação
de garimpeiros o agride brutalmente e isto é crime; a vegetação,
ao longo de suas margens, que era imponente e que existia porque ele estava
lá e sem a qual ele sofreria muito, foi e é irracionalmente
derrubada...; a utilização de milhões de metros cúbicos
de suas águas em projetos de irrigação e produção
agrícola industrial foi feita “dissolvendo” nelas tóxicos
severos, sem falar da quantidade de esgotos sem tratamento que também
correm agredindo suas águas e, no entanto, ele é tão
grande que nada disso o impede de, ao iniciar a corrida em direção
ao mar oferecer-se para resolver o problema da escassez de água,
por onde ele passar, dentro do semi-árido, da maneira como está concebida
no inquestionável Projeto de Integração do Rio São
Francisco.
O diabo, nisso tudo, é que se criou uma guerra ordinária
de oposição ao projeto, com alegações infundadas,
pretextos sordidamente falseados e ameaças temerárias que,
no popular, se pode resumir em dois tópicos criminosamente enrodilhados:
o primeiro é de que a capacidade de gerar energia hidro-elétrica
será diminuída e a segunda, mais perniciosa, de que o “Velho
Chico” pode deixar de ser perene!!! Toda a produção
de energia elétrica da Chesf está integrada no sistema elétrico
nacional o que fulmina aquela insinuação; mas o que causa
maior indignação é que a quantidade máxima
de água do projeto só produziria 170 megawatts de eletricidade!
O outro absurdo: em sua vazão mínima, o Rio S. Francisco
escorre 1.850m3/seg de água enquanto o desvio máximo, NUNCA
CONSTANTE, de água bombeada para os eixos Norte e Leste, somados, é de
63,5m3/seg que representa menos de 3% do volume de água do rio.
Vejo por trás dessa maquinação a sinistra sombra
da burocracia que neste País é uma praga: tem órgão
de governo demais inventando obstáculos...É preciso um murro
na mesa, Senhor Presidente da República e fazer a transposição,
na MARRA!
|
 |