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Opiniões
Antes tarde do
que nunca
Conclusão do Rima: os poucos
impactos negativos porventura gerados pelo Projeto de Integração
poderão ser perfeitamente atenuados e monitorados
por meio de uma série de programas ambientais propostos
pelos técnicos. Fundamentalmente: a bacia do Rio São
Francisco não sofrerá prejuízo com a
transposição das águas
Editorial - O Povo - CE
26/10/2004
O noticiário de ontem trouxe o ataque da senadora
alagoana Heloísa Helena ao projeto de transposição
do rio São Francisco. A invectiva da parlamentar
não é uma surpresa, pois Alagoas, Bahia
e Sergipe são os estados nordestinos que se opõem,
historicamente, à iniciativa, sob o pretexto de
que serão prejudicados. Estudos científicos
têm desmentido as alegações apresentadas
pelos opositores do projeto, e os pontos que apresentariam
alguma vulnerabilidade podem muito bem ser minorados,
segundo os técnicos, através de providências
corretivas.
Desde que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva resolveu
tirar esse projeto da gaveta, recrudesceram os ataques contra a iniciativa,
tendo como ponto de origem alguns segmentos políticos do Sudeste,
que passaram a apoiar entusiasticamente os argumentos dos estados nordestinos
opositores. O custo total do empreendimento é de US$ 1,5 bilhão,
ou R$ 4,3 bilhões. O governo destinou R$ 1,073 bilhão do
orçamento da União para o início das obras, no próximo
ano, o que corresponde mais ou menos ao valor que o Estado brasileiro
gasta com os programas de emergência em cada seca. Dessa maneira
será garantida a segurança hídrica para uma população
de 12 milhões de pessoas, através da perenização
dos rios intermitentes do Nordeste Setentrional.
As preocupações com o meio ambiente por parte dos críticos
são legítimas. Por conta disso, foi elaborado o Relatório
de Impacto Ambiental (Rima) por uma equipe multidisciplinar de 40 cientistas
e técnicos - a maioria sem ligações com o governo
- que analisou todos os aspectos humanos, ambientais e sociais, com possibilidade
de serem afetados pela obra. Conclusão do Rima: os poucos impactos
negativos porventura gerados pelo Projeto de Integração
poderão ser perfeitamente atenuados e monitorados, por meio de
uma série de programas ambientais propostos pelos técnicos.
Fundamentalmente: a bacia do Rio São Francisco não sofrerá prejuízo
com a transposição das águas. Haverá, sim,
alguma perda (137 MW/h) no volume de energia produzida pelas hidrelétricas
situadas no rio, mas que poderão ser compensadas por termoelétricas
e hidrelétricas de outras bacias.
Evidentemente, é indispensável um projeto, simultâneo,
de revitalização do São Francisco (ainda que não
fosse feita a transposição). Ele deve compreender desde
o replantio de matas das nascentes do rio, aumento da navegabilidade,
disciplina e proteção da pesca, até melhora no tratamento
de água e esgotos de cidades ribeirinhas e implemento de ações
de apoio às comunidades do vale, dentre outras providências.
Aliás, no total proposto no orçamento de 2005, R$ 61 milhões
estão previstos para serem aplicados em obras de revitalização
e recuperação do São Francisco (inclusive, R$ 10
milhões para o controle de processos erosivos na bacia do rio e
outros R$ 6 milhões para o reflorestamento de nascentes, margens
e áreas degradadas).
A transposição vai dar garantia para investimentos seguros
na região nordestina, sobretudo, na agricultura irrigada, o que
mudará o perfil econômico da área, por permitir várias
safras por ano. Mas, não só: propiciará água
para beber a grandes contingentes populacionais, nas capitais e grandes
centros urbanos, como Recife, Fortaleza, Campina Grande, dentre outras,
que sofrem ameaça de colapso em seu abastecimento, durante as grandes
estiagens.
É preciso, naturalmente, que essa obra corra pari passu com o
projeto de construção de cisternas de placas para as populações
rurais, já em andamento, e que tem também importância
fundamental. Ora, um projeto não elimina o outro, antes se complementam
mutuamente. Com a transposição estará concretizada
a antiga proposta de abertura de um canal para levar a água do
Rio São Francisco ao Rio Jaguaribe, apresentada pela primeira vez
em 1818 pelo ouvidor do Crato, José Raimundo de Passos Barbosa.
Antes tarde, do que nunca.
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