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Opiniões
Integração do
São Francisco e a sintaxe brasileira
Cláudio Ferreira Lima
*
07/10/2004
Quando um rio corta, corta-se
de vez
O discurso-rio de água que ele fazia;
cortado, a água quebra-se em pedaços,
em poços de água, em água paralítica.
Em situação de poço, a água
equivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma,
e porque assim estanque, estancada;
e mais: porque assim estancada, muda,
e muda porque com nenhuma comunica,
porque cortou-se a sintaxe desse rio,
o fio de água por que ele discorria.
João Cabral de Melo Neto
Primeiro que tudo, como defino o projeto de integração
da bacia do rio São
Francisco? Entendo, na minha visão
de planejador, que se
trata de parte integrante de um projeto maior que visa
integrar o Nordeste ao
restante do Brasil.
Esse projeto maior tem como um dos pontos básicos garantir a oferta
d’água a
regiões dos Estados do Ceará, Rio Grande do
Norte, Paraíba
e Pernambuco.
Porém, o mais importante é que essa água, ao chegar
a esses lugares, tenha o
melhor uso possível, seja para o consumo humano, seja para a produção,
seja
enfim para o desenvolvimento. A propósito, Euclides da Cunha já aventara “uma
provável derivação das águas do São
Francisco, para os tributários superiores
do Jaguaribe e do Piauí, levando perpetuamente à natureza
torturada do Norte os
alentos e a vida da natureza maravilhosa do Sul...”
A integração
deverá encaixar-se nos sistemas hídricos de cada um desses
Estados, e estes
sistemas hídricos, por sua vez, servirão aos planos de desenvolvimento,
que
serão executados sob rigoroso gerenciamento, para minimizar os
desperdícios.
De fundamental importância será a pesquisa e a aplicação
de tecnologias que
poupe, cada vez mais, a água na produção. Do mesmo
modo, a educação ambiental,
que incuta na população a necessidade de preservar os aqüíferos
e economizar a
água.
Mas por que esse projeto? É que estamos
longe de cumprir o ditame
constitucional que define como um dos objetivos fundamentais
da República
Federativa do Brasil “erradicar a pobreza e a marginalização
e reduzir as
desigualdades sociais e regionais”.
Há pobreza e marginalização, há desigualdades
sociais e regionais em todos os
quadrantes do país. Mas esses males se concentram sobremaneira
no Nordeste.
Não é à-toa que, para se definir
o número
de deputados que devem compor a Casa
que representa o povo, não se pode aplicar simplesmente a proporcionalidade
da
população: tem-se que considerar que nenhuma unidade da
Federação terá menos de
oito ou mais de setenta deputados. Isso sob pena de, como
já denunciara
Epitácio Pessoa, deixar com “quatro ou seis Estados apenas
o direito de só eles
decidirem de assuntos que se referem a todos os outros
também, de só eles
gerirem interesses de toda a União”. Não é à-toa,
igualmente, que, no sistema
tributário, a grande disputa seja, como ocorre agora, quando se
discute mais
uma reforma tributária, em torno da cobrança do ICMS: os
Estados mais pobres a
querem no destino, e os mais ricos, na origem.
Claro que o “país arquipélago”, fruto dos ciclos
econômicos, deixou de existir.
Para José Honório Rodrigues, “a unidade foi um ato
criador da Independência, e
especialmente do Império, promovido no Rio”. Antes, o Brasil,
segundo ele, “era
um conjunto de várias regiões ou seções econômicas
que viviam a sua vida
própria”. Mas nem por isso se pode falar em integração.
Longe disso.
Precisamos, por isso, realizar ainda um grande esforço para consegui-la,
e isso
significa principalmente enfrentar a questão nordestina.
A energia de Paulo Afonso, do rio da unidade nacional, tanto quanto os
caminhos
antigos e as BR’s, foi um elo muito importante na busca da integração.
Para
avançar, faz-se imprescindível o elo da água.
Sem esse elo, já conhecemos o que irá causar: o iminente
colapso d’água em
várias áreas e a conseqüente falta de perspectiva econômica
e social.
A maior parte da população nordestina continuará pobre
e marginalizada;
permanecerão as desigualdades sociais e regionais.
A hora presente é de enfrentar as questões
de fundo do emprego, da renda, do
abastecimento d’água e da alimentação. Não
podemos nos demitir dessa
responsabilidade histórica.
Estamos diante de um projeto que, pela sua dimensão sociopolítica,
pode
constituir a meta-síntese deste governo, da mesma maneira que Brasília
o foi do
governo JK. Em torno dele, poderemos mobilizar toda a Nação.
Se esse projeto se dá, espacialmente, numa região,
ele, na verdade, pelo seu
impacto, é um autêntico projeto nacional, porque, até que
enfim, integra todo
este país, tornando-o mais forte diante dos desafios da integração
sul-americana e da inserção mundial soberana.
Não bastasse isso, há uma dívida
nacional para com o Nordeste, que ajudou o
desenvolvimento do Brasil... Tantas foram as “tristes partidas”,
em demanda do
Norte e do Sul. Ora “foi surpreender a puberdade da Amazônia”,
ora foi ser
paraíba no Sudeste, ora foi ser candango em Brasília. Mas,
em todos esses
momentos, sempre foi “o operário em construção
do Brasil”.
O Brasil, enfim, está amadurecido para esse
desafio. A engenharia nacional será
capaz de materializar os projetos. Os recursos, em boa
margem, poderão advir de
uma revisão das prioridades dos projetos previstos para a região
e o país.
Não há argumento contrário que não
possa ser respondido e vencido. A
solidariedade é a marca maior do projeto. Ele deve, pois, mexer
com todo o
país, que há de ser a unidade na diversidade de todas as
suas regiões.
Enquanto isso, cada Estado que será beneficiado deverá redirecionar
a sua
política de recursos hídricos para o acolhimento das novas águas.
Em resumo, aí está uma das tarefas
maiores deste governo.
Vamos conquistar, finalmente, a unidade nacional
tão procurada
em toda a nossa
história... Vamos comunicar as águas, as regiões,
as populações; vamos
construir, em suma, a sintaxe deste país, o fio d’água
que o unirá e,
finalmente, dará sentido ao seu discurso-esperança.
E assim será, pela primeira vez, o projeto que terá a participação
ativa de
todo o povo brasileiro.
* Cláudio Ferreira Lima, é economista, ex-secretário
do Planejamento do Ceará e,
atualmente, coordenador-geral de Planejamento do DNOCS.
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