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Opiniões
Quadro Negro
Editorial - Jornal da Paraíba
07/10/2004
Com a finada Sudene cambaleante e já vivendo
seus últimos momentos, partia de João Pessoa,
em fins de 1999, um relatório assustador sobre
um novo e trágico período de seca no Nordeste.
O alerta, também dirigido ao Gabinete Militar
da Presidência da República, a Assembléias
Legislativas e Universidades, levava a assinatura do
tenente-coronel João Ferreira Filho, engenheiro
e gestor ambiental costumeiramente requisitado pelo 1º Grupamento
de Engenharia e Construção para consultas
do gênero.
Suas previsões eram, no mínimo, inquie-tantes. O novo ciclo
da seca nordestina que se anuncia, estimava ele em relatório encaminha-do
a alguns dos mais importantes gabinetes do País, começará depois
de 2005 e decretará o fim da era dos mananciais. Pelo que afirmava,
ao cabo de tudo, só restariam ao Nordeste os 18 maiores açudes.
Na Paraíba, afirma o documento, sobrará apenas o complexo
Coremas/Mãe D’água. No Ceará, restarão
os oito maiores e, em Pernambuco, nenhum.
O coronel Ferreira é voz ouvida no seu campo de atuação.
Afinal, sempre falou com a autoridade de quem se fez respeitado nas mesas-redondas
e simpósios mais importantes promovidos sobre o tema dentro e fora
do Nordeste. Destacou-se, em tais oportunidades, entre os mais ferrenhos
defensores da transposição de águas do São
Francisco para o Semi-Árido.
Em uma de suas costumeiras entrevistas, ele não deixava por menos: “A
situação é tão crítica que poucas autoridades
federais, esta-duais ou municipais conseguem avaliá-la com exatidão”.
A seu ver, o ciclo da açudagem estará encerrado brevemente
por aqui, de modo que, a partir de 2007, se fará um grande açude
para matar outro.
Ao contrário de João, o Evangelista, o coronel não
clamava sozinho no deserto. Tinha a companhia de muita gente entendida
na matéria. É o caso da equipe técnica que produziu,
em 1973, os estudos do Fundo das Nações Unidas para Alimentação
sobre a crise de abastecimento no Século 21.
Segundo as previsões feitas há mais de 30 anos, a escassez
de água potável decorrerá de uma soma de fatores
que incluirão o crescimento populacional, a degradação
do meio ambiente, a redução da pluviometria e o aumento
do consumo. Se os técnicos estiverem certos - e poucos entendidos
duvidam disso - a crise do petróleo será nada perto dos
problemas que então já se avizinham.
Para o Nordeste brasileiro, o coronel Ferreira
passou a defender, além
da transposição do São Francisco, outra obra necessária à sobrevivência
das capitais: o Aqueduto do Litoral para captação de água
do rio, a jusante de Xingó.
Dessa vez, a exemplo do Evangelista, andou a pregar
sem platéia.
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