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Opiniões
A integração das águas do Nordeste
João Urbano Cagnin 1
28/09/2004
Não resta dúvida de que a água
doce de nossos rios vai se tornando um bem público
cada vez mais valioso. A expansão do desenvolvimento
econômico para novas fronteiras do país
acarreta contínuo comprometimento dos ecossistemas
fluviais, que constituem os receptores naturais dos dejetos
da ocupação sócio-econômica:
esgotos sanitários, agrotóxicos e sedimentos
provenientes do desmatamento que assoreiam os rios.
Recentemente, constata-se a existência de um foco
de atenção especial sobre o nosso mais
emblemático rio, o São Francisco, palco
de parte de nossa história e, entretanto, centro
de discórdia entre os nordestinos, que nele vêem
uma fonte relevante de progresso para a região
semi-árida. Uma fonte que estaria morrendo e não
teria mais água para distribuir e dar sustentabilidade
econômica aos quase 30 milhões de habitantes
do Polígono das Secas. Será essa a realidade?
Felizmente, não é.
Embora ameaçado em alguns trechos e afluentes
pelo assoreamento e pela poluição, o São
Francisco continua a receber a mesma média de
chuva de antes, permitindo-lhe jogar ao mar, anualmente,
em 95% dos anos, pelo menos 60 bilhões de m³ de água
doce ou 2.000 m³/s. Esse volume gera em usinas hidrelétricas,
já próximo ao oceano, cerca de 80% da energia
que abastece o Nordeste, que é distribuída
equanimemente em benefício de todos os nordestinos,
90% dela para fora da bacia do São Francisco.
Sem discórdia! A polêmica aparece quando,
em vez de energia, pretende-se distribuir água,
integrando o rio São Francisco com outras bacias
com baixa oferta hídrica relativa à população
residente. Sem atentar que, seja a retirada de água
para irrigação feita para dentro ou fora
da bacia, o efeito é o mesmo: perda de parcela
da energia gerada no São Francisco.
Integrar o São Francisco com os rios intermitentes
existentes nos limites de sua bacia hidrográfica
será essencial para reduzir o flagrante desequilíbrio
entre a oferta sustentável de água e a
população residente no Polígono:
enquanto a bacia do São Francisco contém
70% da água e 20% da população,
as bacias dos rios intermitentes nos diferentes Estados
abrigam apenas 20% da água e 70% da população.
Assim, a integração de bacias no Nordeste é sinônimo
da promoção da igualdade de oportunidades
para os brasileiros, e disponibilizar mais água
para o desenvolvimento regional no Polígono das
Secas, para o benefício de todos, não deveria
ser motivo de disputa entre nordestinos.
A integração de bacias, além de
socialmente equânime, apresenta ainda um subproduto
relevante: a gestão mais eficaz das águas
armazenadas no semi-árido. Isso porque os grandes
açudes, que perenizam os rios intermitentes, disponibilizam
relativamente pouca água. Para cada m³ de água
disponibilizado para os usuários, perde-se em
geral 3m³ devido à alta taxa de evaporação
(que rouba água armazenada) e pelas restrições
operacionais a futuro desconhecido (necessidade de reservar água
para suprir as necessidades básicas da população
no caso de uma grande seca, freqüente na região),
o que limita a oferta de água dos açudes
para usos múltiplos. A integração
de bacias, a partir da única fonte hídrica
regional de grande volume, como é o rio São
Francisco após a barragem de Sobradinho - o pulmão
do São Francisco -, viabiliza uma operação
menos restritiva dos açudes receptores da integração,
reduzindo-se as perdas de água em até 50%.
Essa economia de água e a melhoria ambiental nos
rios intermitentes estão em linha com os princípios
do Desenvolvimento Sustentável.
Tratar o Velho Chico com responsabilidade e trocar gradualmente
energia, que joga água ao mar, por água
para desenvolver o semi-árido, é a forma
mais eficaz de aproveitar o São Francisco, sem
discriminar populações residentes dentro
ou fora da bacia. Afinal, trata-se de um rio pertencente à sociedade
brasileira, sob gestão federal, não se
podendo transformar as fronteiras do escoamento das águas
da chuva – o divisor topográfico das bacias – em
fronteiras sociais.
No caso do São Francisco, não será a
substituição da energia gerada para disponibilizar água
para todos que desbalanceará o Setor Elétrico:
seu efeito equivale a um investimento adicional anual
em geração de 0,5% do que é considerado
necessário pelo Setor, nos próximos 20
anos.
1 - Coordenador dos Estudos de
Integração
de Bacias da Região
Nordeste no âmbito do Ministério da Integração
Nacional. Chefiou o Departamento de Estudos de Usinas
Hidrelétricas
da Eletronorte
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