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Opiniões
As águas do São Francisco
Jerson Kelman
Diretor-presidente da Agência Nacional de Águas
(ANA)
28/09/2004
A simples menção ao projeto de transporte de água
do Rio São Francisco para o semi-árido setentrional
costuma despertar
violentos confrontos. De um lado do campo, estão os
que vêem como sangria desatada qualquer retirada de água
para
atendimento de demandas localizadas no Ceará, no Rio
Grande do Norte, na Paraíba ou em Pernambuco. Brandem
a
imagem de um doente na UTI sendo obrigado a doar sangue.
Do outro lado ficam os que vêem a retirada de água
como
uma transfusão essencial para salvar a vida de um
outro doente, também na UTI.
Como tudo que é complexo, todos têm razão
e ninguém tem razão. Cada torcida percebe
apenas aspectos parciais da
realidade. A boa notícia é que, ao contrário
do que ocorre no futebol, um time pode ganhar sem que o
outro perca.
É
evidente que os rios da bacia do São Francisco necessitam
de revitalização. Décadas de desmatamento
e de práticas
agrícolas descuidadas deixaram o solo desprotegido
e solto para ser carregado pelas enxurradas, em direção
aos pequenos
riachos e, destes, para os grandes rios. O material que
se deposita no fundo dos rios transforma trechos outrora
profundos
em não navegáveis, criando a sensação
de que os rios da bacia "estão secando".
Na realidade, os rios estão ficando cada vez mais
rasos e largos. Entretanto, alguns rios estão efetivamente
secando, pelo
efeito do consumo desregrado, principalmente para irrigação.
Cada irrigante imagina que o curso de água mais próximo
seja de seu uso exclusivo. Como a demanda acumulada dos
vários irrigantes às vezes ultrapassa a quantidade
total de água disponível na época seca,
os conflitos entre vizinhos são
inevitáveis.
É
preciso criar regras para o que hoje está desregrado.
Neste sentido, a Agência Nacional de Águas está empenhada
em
estabelecer um sistema de outorga (direito de utilizar
os rios), em articulação com os governos estaduais,
baseado em três
conceitos: (1) prioridade de captação para
abastecimento das populações; (2) garantia
de livre acesso à água dos pequenos
agricultores (lavoura de subsistência); (3) incentivos às
atividades empresariais que utilizam os rios eficientemente,
tanto
para captação de água como para afastamento
e diluição de poluentes. Outras medidas devem
ser adotas adicionalmente
para que o São Francisco se revitalize. Particularmente,
investimentos em saneamento, obras de regularização
e ações para
contenção da erosão.
Mesmo os mais ardorosos antagonistas da transposição
reconhecem o direito de todos os brasileiros, até daqueles
de
estados não ribeirinhos, de aplacar a sede com água
do Rio São Francisco. A ANA mantém uma disponibilidade
hídrica,
correspondente a uma vazão média de 26 metros
cúbicos por segundo, para futuro abastecimento das
populações de Ceará,
Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco. Trata-se
de 1% da quantidade média de água que o São
Francisco despeja no
mar. Entretanto, suficiente para atender a toda a população
do semi-árido abrangida pelo projeto, até o
ano 2025.
Muitos acharão pouco. Afinal, a água, além
de ser indispensável à vida, é também
insumo para atividades agrícolas e
industriais, sem as quais as pessoas não conseguem
viver com dignidade.
É
aí que reside a discórdia. Muitos questionam
se é razoável transportar água do São
Francisco por centenas de
quilômetros, vencendo desníveis de dezenas de
metros, para utilizá-la na irrigação.
Indagam da razão para não realizar a
irrigação no próprio vale do São
Francisco, onde remanescem centenas de milhares de hectares
férteis e ainda não
aproveitados.
São questionamentos sensatos. Devemos começar
a tratar do assunto, uma vez mais, por onde existir convergência.
Mesmo os que formulam estas legítimas questões
concordam com o uso da água do São Francisco
para irrigar lavouras
localizadas fora da bacia hidrográfica, desde que
esta água não faça falta aos usuários
da própria bacia. No caso específico,
esta circunstância ocorre sempre que o reservatório
de Sobradinho está cheio.
Nesta situação, todo o excesso de afluência
verte em direção ao mar, não fazendo
falta a quem quer que seja. Se a água,
em vez de passar pelos vertedores, passasse pelas turbinas,
seria gerada uma energia extra, a custo praticamente nulo,
que
poderia acionar as bombas hidráulicas utilizadas na
transposição.
Nesta altura, o leitor deve estar pensando que nenhum irrigante
localizado fora da bacia se sujeitaria a um regime tão
inseguro de suprimento de água. Realmente, ninguém
poderá irrigar recebendo água apenas quando
Sobradinho estiver
cheio.
Há, no entanto, uma circunstância favorável: grandes
açudes foram construídos nos estados receptores, ao longo
de muitas
décadas, com suficiente volume para armazenar as sobras de água
do São Francisco, para serem posteriormente liberadas
de modo gradual. É por esta razão que a ANA decidiu recomendar
que futuros estudos da transposição considerem a
hipótese de que o sistema de bombeamento funcione em dois modos,
respectivamente "mínimo" e "máximo".
No modo
mínimo, o bombeamento seria de apenas 26 metros cúbicos
por segundo, para abastecimento das populações. No modo
máximo, seria realizado um bombeamento adicional de 101 metros
cúbicos por segundo, durante 21 horas por dia, para
enchimento dos reservatórios da região receptora. O modo
máximo só seria acionado quando o reservatório de
Sobradinho
estivesse quase cheio. Simulações feitas pela ANA, para
o cenário de utilização de água em 2025, demonstram
que, com
esta regra, o bombeamento médio seria superior ao que consta do
anteprojeto da obra de engenharia, concluído pelo
Ministério de Integração Nacional em 2002.
Naturalmente, a decisão final quanto à conveniência
do empreendimento é da alçada do governo federal, que certamente
ouvirá as ponderações dos estados afetados, do recém-criado
Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco e do
Conselho Nacional de Recursos Hídricos. Embora o custo total seja
relevante para a decisão, é oportuno destacar a
responsabilidade da União em reverter o atual quadro de desequilíbrio
regional, que ameaça a integridade nacional.
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