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Opiniões
São Francisco das águas
Ciro Gomes
Ministro da Integração Nacional
17/09/2004
Segundo a Organização das Nações
Unidas, a vida é sustentável quando é possível
dispor de, no mínimo, 1.000 metros cúbicos
de água por habitante/ano. Em algumas áreas
dos sertões dos estados de Pernambuco, da Paraíba,
do Rio Grande do Norte e do Ceará, que integram o
Nordeste Setentrional e onde vivem cerca de 9 milhões
de habitantes, a disponibilidade de água é de,
aproximadamente, 500 metros cúbicos por habitante/ano,
ou seja, metade do índice mínimo estabelecido
pela ONU. Com o agravante de que essa disponibilidade per
capita de água deverá ser ainda mais reduzida
com o aumento previsto da população da região
nos próximos anos.
O Ceará, a Paraíba e o Rio Grande do Norte não
dispõem de rios perenes, como o São Francisco e
o Parnaíba, que banham os demais estados do Nordeste.
O São Francisco responde, sozinho, por cerca de 70% de
toda a oferta de água da região. Sem uma distribuição
mais eqüitativa de suas águas, não haverá como
atender adequadamente aos nordestinos, agravando ainda mais as
desigualdades regionais, uma vez que o processo migratório
está diretamente associado à falta de sustentabilidade
hídrica no semi-árido.
O rio São Francisco nasce na serra da Canastra, em Minas
Gerais, corta ao meio o Estado da Bahia, irriga terras férteis
de Pernambuco e chega ao Atlântico na exata divisa de Sergipe
e Alagoas. Ele despeja no mar, em média, 2.700 metros
cúbicos por segundo, volume que, nos anos de grandes cheias,
chega até 15 mil metros cúbicos por segundo e,
nos anos hidrológicos críticos, reduz-se a 1.850
metros cúbicos por segundo, com a regularização
propiciada pelo reservatório de Sobradinho.
Para evitar que, nos próximos anos, falte água
para proporcionar um mínimo de condições
de sobrevivência e sustentabilidade aos nossos irmãos
brasileiros do Nordeste Setentrional, o presidente Luís
Inácio Lula da Silva determinou que fosse retomada a idéia
de integrar a bacia do São Francisco às bacias
dos rios do agreste e dos sertões de Pernambuco, Paraíba,
Rio Grande do Norte e Ceará. O esforço neste sentido
começou no ano passado, sob a liderança do vice-presidente
José Alencar, que promoveu reuniões em todos os
estados do Nordeste, incluindo Minas Gerais, berço do
rio, e tomou parte de sessões especiais no Senado e na
Câmara dos Deputados, recolhendo subsídios que permitiram
a adequação operacional do projeto original às
condições hidrológicas do rio.
O que se pretende, agora, é captar,
depois da barragem de Sobradinho, e levar para os sertões
setentrionais do Nordeste, o equivalente a apenas 1% do volume
médio despejado
em sua foz, ou seja, 26 metros cúbicos por segundo destinados
a garantir o consumo humano e animal, liberando as águas
armazenadas nos açudes para atividades econômicas
necessárias à geração de emprego
e renda numa região cujas opções de desenvolvimento
sustentável são fortemente condicionadas à segurança
no fornecimento de água. Todavia, a Agência Nacional
de Águas (ANA), à qual cabe legalmente outorgar
o uso da água, prevê que, nos anos de hidrologia
favorável no rio São Francisco – isto é,
quando a barragem de Sobradinho estiver cheia –, essa captação
poderá elevar-se a até 63 metros cúbicos
por segundo, volume que, transferido para os açudes dos
rios intermitentes de Pernambuco, da Paraíba, do Rio Grande
do Norte e do Ceará, terá uso múltiplo.
O projeto será constituído de dois canais – o
Leste, que demandará aos estados de Pernambuco e Paraíba,
e o Norte, que levará a água ao Ceará, à Paraíba
e ao Rio Grande do Norte. O empreendimento, cuja primeira fase
custará cerca de R$ 4 bilhões e deverá estar
concluída em dois anos, é uma das etapas do Programa
de Desenvolvimento Sustentável do Semi-Árido, que,
por determinação do presidente Lula, está sendo
elaborado pelos Ministérios do Meio Ambiente e da Integração
Nacional, contemplando especialmente, entre as muitas ações
previstas, o programa de revitalização hidroambiental
do rio São Francisco, para o que estão sendo aplicados,
neste ano, R$ 26 milhões. No próximo ano, a dotação
chegará a R$ 100 milhões, somente nos dois Ministérios,
sem contar outros fundos públicos, como, por exemplo,
os dos organismos que cuidam do saneamento básico.
A revitalização do rio – que nos últimos
100 anos sofreu inúmeros impactos locais, como a construção
de barragens e o desmatamento que ainda hoje prossegue – pretende
recuperar as suas matas ciliares, tratar os esgotos sanitários,
controlar o desmatamento e preservar as matas remanescentes,
garantir vida digna aos pescadores artesanais e melhorar a sua
navegabilidade. Isto é tarefa para os três níveis
de governo e, também, para toda a sociedade sanfranciscana,
hoje representada pelo Comitê da Bacia do rio São
Francisco.
Como disse, com toda razão, o presidente Lula na mais
recente reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico
e Social, o rio São Francisco é de toda a sociedade.
Desejo aqui reafirmar que é necessário garantir
uma melhor distribuição de água aos brasileiros
que habitam a parte mais seca do Nordeste, sem prejuízos
para os que compartilham suas belezas naturais e usam as suas águas
para produzir.
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